Ontem tive o prazer de participar do podcast Ciência Sem Fim, do Sérgio Sacani. Fiquei impressionado com a clareza de pensamento do Sérgio, sua organização e energia inesgotável. Três horas de papo sem parar não é mole não, mas o Sérgio faz parecer fácil. 🙂
Gravação no youtube da participação de Rodrigo Nemmen no podcast Ciência Sem Fim, com Sérgio Sacani.
Na última quinta-feira participei da gravação de um canal popular no youtube, o Spotniks, cuja proposta é colocar duas pessoas que não se conhecem e não sabem nada uma da outra, para conversar, cara-a-cara. Quando me convidaram, eu achei a proposta muito divertida, e acabei topando participar do programa.
Adivinha quem eles colocaram para conversar comigo. Depois de aceitar ir ao programa, e vendo a lista de vídeos que eles produziram, eu suspeitava que a produção iria me parear com uma das seguintes opções: A) um terraplanista, B) um astrólogo, C) um ufólogo, D) um curador quântico.
Bem, eles colocaram do outro lado o Alexandre, um senhor muito simpático que, além de acupunturista, psicoterapeuta, homeopata e ambientalista (nas palavras dele), também é… Astrólogo.
O vídeo final disponibilizado no canal (“colocamos um astrônomo e um astrólogo para conversar”, Spotniks) foi editado para caber em menos de cinquenta minutos, mas a conversa na verdade durou duas horas e meia (!!). Estimo que 90% desse tempo consistiu do astrólogo ficar falando — de maneira nada sucinta ou objetiva — como os astros supostamente afetariam os eventos na Terra, porque os astrólogos (não) são bilionários e afirmando que astrologia é uma ciência (não é). Nos 10% restantes desse tempo eu usei o método socrático e fiz umas perguntas bem básicas sobre astrologia e seus métodos. Vocês podem conferir como foi a conversa no vídeo abaixo.
Confesso que depois de duas horas de enrolação eu já estava duplamente ranzinza: por causa da fome (a conversa começou às 11h e se estendeu além das 13:30), e por já ter perdido a paciência por não ter respostas objetivas do meu parceiro.
Não sei qual será a reação dos youtube-espectadores. De qualquer forma, eu me diverti durante a conversa. Afinal de contas, foi pra isto que eu aceitei o convite da Spotniks.
Atualização 14 de maio 2021: O vídeo do spotniks foi retirado do ar.
Atualização 28 de maio 2021: O motivo do vídeo ter saído do ar é que o astrólogo está processando o spotniks por danos morais, devido aos comentários deixados pela audiência no vídeo do youtube (!?!). Foi determinado que o vídeo fosse suspenso, enquanto o processo está correndo. O andamento do processo pode ser acompanhado no TJSP, processo número 1006119-77.2021.8.26.0016.
Atualização 3 de junho 2021: Fiquei sabendo que quem publicou vídeos de reacts ao vídeo do spotniks receberam notificações extrajudiciais do advogado do astrólogo para retirarem seus vídeos do ar. Ou seja, na prática, desapareceu do youtube qualquer traço de que a conversa aconteceu.
No dia 29 de Outubro, dei uma palestra online no evento Física em Casa, organizado pelas amigas do ICTP SAIFR, onde descrevi porque Roger Penrose, Andrea Ghez e Reinhard Genzel ganharam o Prêmio Nobel da física de 2020, e comentei sobre a importância do feito.
Em 23 de Setembro, eu dei a palestra “A nova era de ouro dos buracos negros” na ocasião do evento Convite à Física, organizado pelos amigos do IF USP.
Os anos 60 foram os anos dourados da pesquisa teórica sobre buracos negros, onde nomes como Roger Penrose e Stephen Hawking elevaram a nossa compreensão física destes estranhos astros a um outro patamar. Neste convite à física, argumentei que entramos em 2009 numa segunda e empolgante era de ouro da pesquisa em buracos negros, impulsionada desta vez por avanços empíricos. Quais são as principais descobertas da nova astronomia de buracos negros? E o que vem pela frente?
Pesquisa FAPESP: O centro das galáxias seriam os melhores lugares para detectar um “enxame” de buracos negros como esse? Se sim, por que motivo?
Sim. Há mais de dez anos foi previsto que a região central da galáxia teria, usando o seu termo, um enxame de buracos negros estelares, com masses de cerca de 10 massas solares. De fato, a previsão é de que haveriam milhares destes buracos negros estelares no parsec central. O motivo é que há uma grande quantidade de estrelas massivas nesta região da galáxia, que deram origem a buracos negros. Devido a um efeito chamado fricção dinâmica na astrofísica—que é puramente gravitacional—objetos mais massivos que estão se movendo em meio a astros menos massivos tendem a perder momentum e caem para a região central da galáxia. O mesmo fenômeno explica porque buracos negros supermassivos habitam o centro das galáxias. Devido à fricção dinâmica, os buracos negros estelares acabam migrando para as partes centrais da galáxia.
Pesquisa FAPESP: Seria possível “fotografar” esses buracos negros em algum comprimento de onda?
Imagear não é possível, pois eles têm um horizonte de eventos pequeno—diâmetro de ~60 km—a distâncias maiores que 1 kpc. Um instrumento capaz de fotografar estes buracos negros deveria ser capaz de resolver um objeto de 1000 nm na superfície da Lua. Impossível com a tecnologia atual. Nem mesmo imagear os discos de acreção destes buracos negros estelares é possível.
Pesquisa FAPESP: Como eles foram detectados e o que sua distribuição espacial revela? é provável que eles colidam num futuro próximo? [considerando a escala de tempo necessária para que esse tipo de evento cósmico ocorra]
A evidência da sua presença se deve à detecção de raios X—neste caso fótons com energias entre 2 e 8 keV. O estudo em questão encontrou evidência de muitas fontes pontuais de raios X a uma distância menor que 1 pc do centro da Nossa Galáxia; tais fontes são caracterizadas por um espectro de radiação eletromagnética chamado de “espectro não-térmico”, o que naturalmente é produzido pelo gás acelerado e super-aquecido no disco de acreção ao redor de buracos negros. Por este motivo elas são fortes candidatas a buracos negros estelares.
É improvável que eles colidam num futuro próximo pois tais processos podem demorar muito tempo até a colisão final—potencialmente centenas de milhões a bilhões de anos. Mas quem sabe temos sorte e exista um sistema binário de buracos negros próximo de se fundir? As ondas gravitacionais emitidas por tal fenômeno gerariam uma forte detecção com LIGO-Virgo.
What books on the topic of black holes would you suggest as a starting point for interested readers without specialized knowledge of physics and math?
I interpret this question as: what books about black holes that I would suggest for people who are not pursuing physics or math as a career or taking a physics/math undergraduate course? Luckily, there are many lovely books for a broad spectrum of readers.
For readers with high-school or higher education
Black holes. Heather Couper & Nigel Henbest. This book is fantastic and gives a lucid, accurate description of black holes, their features and role in the cosmos. Plus, it is full of awesome illustrations. Unfortunately, it is out of print.
Death by black holes and other cosmic quandaries. Neil de Grasse Tyson. This is a collection of articles on different topis of science and astronomy, and there is only one chapter about black holes.
George’s secret key to the universe. Stephen Hawking, Lucy Hawking & Garry Parsons. Written by Stephen Hawking’s daughter. A lovely story of George’s quest to understand the universe
In-depth books without math
For those wanting to go deeper, without falling inside the event horizon. I would especially recommend the books below for physics, math or engineering undergraduate students.
Gravity’s fatal attraction: Black holes in the universe. Mitchell Begelman & Martin Rees. For the undergrads that come to me interested in doing a undergraduate research project on black holes, I always recommend to read a couple of chapters from this book. Clear, non-technical description of black hole astrophysics, getting into a bit more detail than other expositions on the subject.
Black holes and time warps. Kip Thorne. A classic, must-read book for anybody wanting an in-depth account of the history of black holes and the main discoveries until the mid-nineties. Written by one of the leaders in the field and one of the pioneers of the LIGO observatories (he eventually got a Nobel prize for LIGO). Thorne gives a lot of historical details about the development of the theory of black holes and their observations.
Recent developments: Gravitational waves and the first image of a black hole
Black hole blues and other song. Janna Levin. I have to say this book was a ton of fun to read! This is a required reading for anybody wanting to understand the history of LIGO and the quest for gravitational waves.
Einstein’s shadow. Seth Fletcher. A description of the challenges behind the Event Horizon Telescope, published before the first image of an event horizon was taken.
No dia 26 de Abril às 18h apresentarei a palestra do evento Convite à Física no IF USP. Originalmente iria falar sobre os “13 maiores mistérios cósmicos” que é um assunto super interessante é claro. Porém, dados desenvolvimentos recentes muito empolgantes na astronomia, resolvi mudar o assunto da palestra.
Atingindo o impossível: A primeira fotografia de um buraco negro
Rodrigo Nemmen / IAG USP
Em 12 de Abril, um time internacional de astrônomxs apontou um observatório do tamanho do planeta Terra—o Event Horizon Telescope—para o centro da Nossa Galáxia, com o objetivo de obter a primeira fotografia de um horizonte de eventos: a misteriosa fronteira de um buraco negro da qual nada consegue escapar. Nesta palestra, falarei sobre esta incrível aventura científica e de como ela pode abrir novos horizontes na nossa compreensão da gravidade.
Recentemente dei uma entrevista para o canal Quem Explica no youtube, falando sobre os conceitos científicos envolvidos na trama do filme Interestelar. O Diego Senise e a Carol Scavazzini fizeram uma excelente edição dos vídeos, que constam nos links abaixo.
Parte 1: Premissa do filme Interestelar; teoria da relatividade geral; gravidade dos buracos negros
Parte 2: O que é o tal de “espaço-tempo” na física?
Parte 3: O que são anomalias gravitacionais na astrofísica, e o que isto tem a ver com Einstein, matéria escura e energia escura?
Parte 4: Viagem a outras dimensões e o “tesseract” do filme
Parte 5: “A matemática é a partitura do universo”: o poder das equações na física e alguns exemplos de equações da teoria da relatividade geral
Já está no ar a entrevista que eu dei para o pessoal do podcast “Estourando a Bolha” do IAG USP. Foi uma entrevista superdivertida onde conversamos sobre astronomia, ondas gravitacionais, NASA e muitas outras coisas (inclusive astrologia).
O programa está dividido em três partes. Na primeira parte, conversamos sobre a diferença entre astronomia, astrofísica e astrologia. Depois conversamos sobre o ciclo de vida das estrelas e como surgem os buracos negros.
Na segunda parte, conversamos sobre o espaço e o tempo, e o que é a teoria da relatividade de Einstein. Expliquei o que são ondas gravitacionais, a recente observação destas ondas pelo LIGO e o que foi necessário para realizar esta importante descoberta.
Na terceira parte, contei um pouco da minha trajetória científica, desde a minha cidade natal — Passo Fundo, RS — até astrofísico na NASA e depois se tornar professor na USP. Também explico porque decidi retornar ao Brasil.
Vale a pena conferir a entrevista. E parabéns ao pessoal do Estourando a Bolha! Continuem fazendo bonito.
Há algumas semanas, a ciência atingiu novos patamares. É o começo de uma verdadeira revolução na astronomia: a partir de agora, não estamos limitados a observar o universo usando somente a luz dos astros, neutrinos e raios cósmicos — agora podemos, literalmente, escutar a sinfonia do espaço-tempo criada pelo universo e através desta sinfonia entender os fenômenos mais misteriosos e violentos do cosmos.
Tudo isto graças a GW150914, que é o nome dado à primeira fonte de ondas gravitacionais observada diretamente na história. GW150914 que nos forneceu : a primeira detecção direta de uma fonte de ondas gravitacionais, através do experimento LIGO. A significância desta descoberta é enorme:
primeira observação direta das ondas gravitacionais (lembrando que já fizemos uma observação indireta das ondas gravitacionais através do decaimento da órbita de um sistema binário de pulsares)
primeira observação de um sistema binário de buracos negros
primeira observação de um sistema binário de buracos negros que sofreu coalescência
Apesar de eu não trabalhar com ondas gravitacionais, fui entrevistado diversas vezes para falar um pouco sobre esta incrível descoberta e a sua importância. Abaixo, reuni algumas das declarações que eu tenho dado à imprensa sobre o assunto:
Futurologia da minha parte: prevejo que esta descoberta vai render um prêmio Nobel nos próximos dois anos aos cientistas que lideraram o experimento LIGO.