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Comentário para Revista Pesquisa FAPESP sobre evidência de buracos negros estelares na região central da Via Láctea

A seguir, reproduzo o comentário que dei para a Revista Pesquisa FAPESP sobre a descoberta de potencialmente centenas de buracos negros estelares na região central da Nossa Galáxia, publicado recentemente na Nature.

Pesquisa FAPESP: O centro das galáxias seriam os melhores lugares para detectar um “enxame” de buracos negros como esse? Se sim, por que motivo?

Sim. Há mais de dez anos foi previsto que a região central da galáxia teria, usando o seu termo, um enxame de buracos negros estelares, com masses de cerca de 10 massas solares. De fato, a previsão é de que haveriam milhares destes buracos negros estelares no parsec central. O motivo é que há uma grande quantidade de estrelas massivas nesta região da galáxia, que deram origem a buracos negros. Devido a um efeito chamado fricção dinâmica na astrofísica—que é puramente gravitacional—objetos mais massivos que estão se movendo em meio a astros menos massivos tendem a perder momentum e caem para a região central da galáxia. O mesmo fenômeno explica porque buracos negros supermassivos habitam o centro das galáxias. Devido à fricção dinâmica, os buracos negros estelares acabam migrando para as partes centrais da galáxia.

 

Pesquisa FAPESP: Seria possível “fotografar” esses buracos negros em algum comprimento de onda?
Imagear não é possível, pois eles têm um horizonte de eventos pequeno—diâmetro de ~60 km—a distâncias maiores que 1 kpc. Um instrumento capaz de fotografar estes buracos negros deveria ser capaz de resolver um objeto de 1000 nm na superfície da Lua. Impossível com a tecnologia atual. Nem mesmo imagear os discos de acreção destes buracos negros estelares é possível.
Pesquisa FAPESP: Como eles foram detectados e o que sua distribuição espacial revela? é provável que eles colidam num futuro próximo? [considerando a escala de tempo necessária para que esse tipo de evento cósmico ocorra]
A evidência da sua presença se deve à detecção de raios X—neste caso fótons com energias entre 2 e 8 keV. O estudo em questão encontrou evidência de muitas fontes pontuais de  raios X a uma distância menor que 1 pc do centro da Nossa Galáxia; tais fontes são caracterizadas por um espectro de radiação eletromagnética chamado de “espectro não-térmico”, o que naturalmente é produzido pelo gás acelerado e super-aquecido no disco de acreção ao redor de buracos negros. Por este motivo elas são fortes candidatas a buracos negros estelares. 
 
É improvável que eles colidam num futuro próximo pois tais processos podem demorar muito tempo até a colisão final—potencialmente centenas de milhões a bilhões de anos. Mas quem sabe temos sorte e exista um sistema binário de buracos negros próximo de se fundir? As ondas gravitacionais emitidas por tal fenômeno gerariam uma forte detecção com LIGO-Virgo.
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Participação no Jornal Band News: Colisão de estrelas de nêutrons

Ontem à noite, participei do Jornal Band News contando a importância da grande descoberta astronômica sobre a colisão das duas estrelas de nêutrons.

Foi um momento histórico, o início da era da astronomia dos multi-mensageiros: observação de ondas gravitacionais e luz vindos de uma mesma fonte astronômica! E a resposta ao mistério da origem dos elementos mais pesados que o ferro da tabela periódica.

Espero que tenha passado os principais aspectos da descoberta, ressaltando a participação de muitos astrônomos no Brasil em vários estados—RN, RJ, SP, SC e SE—e em várias instituições—INPE e UFRN (times do LIGO/VIRGO), e USP, ON, UFRJ, UFSE e UFSC (contrapartida eletromagnética).

Agora tem o trabalho—prazeroso diga-se de passagem—de ler os vários artigos publicados sobre o evento. Foram mais de sessenta artigos publicados no PRL, ApJL, Nature e Science, reportando os resultados das análises das ondas gravitacionais e observações eletromagnéticas desde rádio até raios gama.

Oportunidade de iniciação científica: computação de alto desempenho

Procuro aluno(a)s interessado(a)s em Iniciação Científica em computação de alto desempenho aplicada à astrofísica. O projeto consiste em acelerar ray tracing ao redor de buracos negros—a la Interestelar—usando GPUs.

Requisitos:

  • Cursar ciência da computação, engenharia elétrica ou matemática aplicada
  • Conforto com a linguagem C
  • Conhecimentos básicos–ou forte interesse–em otimização e paralelização
  • Pontos extras: noções de programação em GPUs (OpenCL ou CUDA)

Aluno(a)s interessado(a)s favor contatar o Prof. Rodrigo Nemmen, anexando o histórico escolar.

Schnittman black hole accretion
Simulação numérica de acreção a um buraco negro. Crédito: J. Schnittman.

cartaz IC computacao

Atingindo o impossível: A primeira fotografia de um buraco negro

No dia 26 de Abril às 18h apresentarei a palestra do evento Convite à Física no IF USP. Originalmente iria falar sobre os “13 maiores mistérios cósmicos” que é um assunto super interessante é claro. Porém, dados desenvolvimentos recentes muito empolgantes na astronomia, resolvi mudar o assunto da palestra.

A minha palestra vai ser “Atingindo o impossível: A primeira fotografia de um buraco negro”. Com toda a hype que está acontecendo ao redor do Event Horizon Telescope, resolvi falar sobre este assunto, que diga-se de passagem também é um grande mistério cósmico.

Mais informações logo abaixo.


 

Atingindo o impossível: A primeira fotografia de um buraco negro

Rodrigo Nemmen / IAG USP

Em 12 de Abril, um time internacional de astrônomxs apontou um observatório do tamanho do planeta Terra—o Event Horizon Telescope—para o centro da Nossa Galáxia, com o objetivo de obter a primeira fotografia de um horizonte de eventos: a misteriosa fronteira de um buraco negro da qual nada consegue escapar. Nesta palestra, falarei sobre esta incrível aventura científica e de como ela pode abrir novos horizontes na nossa compreensão da gravidade.

Palestra no Convite à Física, IF USP

Local: Auditório Abrahão de Moraes, Instituto de Física da USP

Quando: 26 de Abril, Quarta-feira, 18h

divulgacao
Crédito da imagem: M. Moscibrodzka, T. Bronzwaer, H. Falcke / Radboud University

 

Participação no Canal Quem Explica / Youtube

Recentemente dei uma entrevista para o canal Quem Explica no youtube, falando sobre os conceitos científicos envolvidos na trama do filme Interestelar. O Diego Senise e a Carol Scavazzini fizeram uma excelente edição dos vídeos, que constam nos links abaixo.

  1. Parte 1: Premissa do filme Interestelar; teoria da relatividade geral; gravidade dos buracos negros
  2. Parte 2: O que é o tal de “espaço-tempo” na física?
  3. Parte 3: O que são anomalias gravitacionais na astrofísica, e o que isto tem a ver com Einstein, matéria escura e energia escura?
  4. Parte 4: Viagem a outras dimensões e o “tesseract” do filme
  5. Parte 5: “A matemática é a partitura do universo”: o poder das equações na física e alguns exemplos de equações da teoria da relatividade geral

 

Entrevista: surfando ondas gravitacionais, USP e NASA (podcast)

Já está no ar a entrevista que eu dei para o pessoal do podcast “Estourando a Bolha” do IAG USP. Foi uma entrevista superdivertida onde conversamos sobre astronomia, ondas gravitacionais, NASA e muitas outras coisas (inclusive astrologia).

O programa está dividido em três partes. Na primeira parte, conversamos sobre a diferença entre astronomia, astrofísica e astrologia. Depois conversamos sobre o ciclo de vida das estrelas e como surgem os buracos negros.

Na segunda parte, conversamos sobre o espaço e o tempo, e o que é a teoria da relatividade de Einstein. Expliquei o que são ondas gravitacionais, a recente observação destas ondas pelo LIGO e o que foi necessário para realizar esta importante descoberta.

Na terceira parte, contei um pouco da minha trajetória científica, desde a minha cidade natal — Passo Fundo, RS — até astrofísico na NASA e depois se tornar professor na USP. Também explico porque decidi retornar ao Brasil.

Vale a pena conferir a entrevista. E parabéns ao pessoal do Estourando a Bolha! Continuem fazendo bonito.

Ondas gravitacionais

Há algumas semanas, a ciência atingiu novos patamares. É o começo de uma verdadeira revolução na astronomia: a partir de agora, não estamos limitados a observar o universo usando somente a luz dos astros, neutrinos e raios cósmicos — agora podemos, literalmente, escutar a sinfonia do espaço-tempo criada pelo universo e através desta sinfonia entender os fenômenos mais misteriosos e violentos do cosmos.

Tudo isto graças a GW150914, que é o nome dado à primeira fonte de ondas gravitacionais observada diretamente na história. GW150914  que nos forneceu : a primeira detecção direta de uma fonte de ondas gravitacionais, através do experimento LIGO. A significância desta descoberta é enorme:

  • primeira observação direta das ondas gravitacionais (lembrando que já fizemos uma observação indireta das ondas gravitacionais através do decaimento da órbita de um sistema binário de pulsares)
  • primeira observação de um sistema binário de buracos negros
  • primeira observação de um sistema binário de buracos negros que sofreu coalescência

O artigo de descoberta, publicado na revista Physical Review Letters, é belíssimo. Recomendo fortemente a sua leitura às interessadas. Até onde eu sei, é a primeira vez que um artigo conseguiu tirar do ar os servidores da PRL. É claro que uma imensa cobertura da imprensa se seguiu à publicação do artigo, indo desde cartum no New Yorker, matéria no Fantástico até uma passagem no The Late Show.

Apesar de eu não trabalhar com ondas gravitacionais, fui entrevistado diversas vezes para falar um pouco sobre esta incrível descoberta e a sua importância. Abaixo, reuni algumas das declarações que eu tenho dado à imprensa sobre o assunto:

Ondas gravitacionais: Só o começo da verdade que está lá fora
USP Online (destaque). Feb. 2016

“O mais empolgante está por vir. Só começamos a escutar o espaço-tempo”
Carta Educação. Feb. 2016

Ondas gravitacionais detectadas vão mudar observação do universo(rádio). Reach: 68 million people
Agência RadioWeb. Feb. 2016

Para ficar na história: Ciência comprova existência das ondas gravitacionais
Ciência Hoje. Feb. 2016

Futurologia da minha parte: prevejo que esta descoberta vai render um prêmio Nobel nos próximos dois anos aos cientistas que lideraram o experimento LIGO.